Soluções para o uso sustentável da água nas fazendas

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O Brasil, que hoje possui mais de 75 milhões de hectares plantados, teve a safra de 2015 projetada em 204,3 milhões de toneladas – a maior estimativa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em mais de 40 anos do Levantamento Sistemático de Produção Agrícola (LSPA). Entre os vários fatores que contribuem para se chegar a números como esses, a oferta de água é um dos mais importantes. Segundo Lineu Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados, a gestão bem aplicada no uso da água é fundamental para viabilizar o funcionamento eficiente e a manutenção dos sistemas produtivos agrícolas brasileiros. “Esse é o foco da rede Agrohidro: a sustentabilidade na produção de alimentos, o que passa pelos recursos hídricos”.

Com cinco anos de trabalho e vários resultados a apresentar, a Rede Agrohidro reúne especialistas de diversas regiões do Brasil para investigar o uso eficiente da água nos sistemas produtivos agrícolas do Brasil. Formada por sete projetos componentes, com mais de 200 atividades relacionadas tanto à pesquisa científica quanto à sua gestão, a Rede conta hoje com cerca de 120 pesquisadores para entender e aprimorar o uso dos recursos hídricos no campo, considerando os impactos das mudanças climáticas e do uso das terras na agricultura. Rodrigues, que é coordenador da Rede, ainda explica que o país viva um momento delicado em relação aos recursos hídricos, muito pouco da água brasileira é utilizado na agricultura – menos de 1% das vazões dos rios.

Resultados na prática
A água do córrego Buriti Vermelho, localizado na porção sudeste do Distrito Federal, estava se tornando escassa em uma época incomum para esse tipo de comportamento. A água é utilizada na agricultura pelos produtores rurais locais. “A partir de um conhecimento do sistema de manejo das necessidades hídricas das culturas plantadas na região, a equipe da Rede Agrohidro pôde orientar a população quanto à quantidade ideal de retirada de água, reunindo os produtores da região. O córrego voltou a correr em três dias”, afirma a pesquisadora Azeneth Schuler, da Embrapa Solos, que lidera um dos projetos da Rede.

Esse é um exemplo de uma situação em que foi possível resolver um problema de abastecimento de água a partir das pesquisas feitas pela Rede Agrohidro. “Para a orientação da gestão do manejo, tanto em pequenas bacias quanto nas médias e nas grandes, o projeto pode obter muitas informações e orientações para a gestão da água”, diz Schuler.

Luís Henrique Bassoi, pesquisador da Embrapa Instrumentação que coordena o Portfólio de Agricultura Irrigada da Embrapa, é o líder de um dos projetos componentes da Rede que elaborou várias possibilidades para se promover a sustentabilidade no uso da água. “Nós temos exemplos, começando de norte a sul, de técnicas de revegetação no bioma amazônico, para que a população ou o produtor possa ter acesso à água e, ao mesmo tempo, possa promover a sustentabilidade. Nós também temos resultados com relação a como usar informações do ambiente físico para realizar um melhor planejamento do uso de água em grandes escalas (…)”. O pesquisador cita ainda que em outras regiões, como no centro-oeste do Brasil, há conclusões referentes às melhores épocas para alguns grãos: “Nós temos resultados de manejo de irrigação para o sorgo sacarino e, ainda no centro-oeste, para o plantio de milho e para utilização do biocarvão (ou biochar), um condicionador que pode aumentar a capacidade do solo de reter água”, completa.

Em relação à gestão da água, o pesquisador Ricardo Figueiredo, da Embrapa Meio Ambiente, explica a importância de se planejar o uso desse recurso. “Se você ocupa um espaço em um terreno, você vai alterar aquele terreno de alguma forma, mas isso pode ser feito de maneira positiva. Por exemplo, um dos nossos projetos se refere a pagamentos por serviços ambientais hídricos em uma determinada região, onde o manejo do solo melhorado tem ajudado na renovação e alimentação dos estoques hídricos das águas superficiais, que são os rios”.

Água de todos
O pesquisador alemão Sven Kralisch, da Universidade Friedrich Schiller de Jena, trabalha em parceria com a rede Agrohidro. Ele desenvolve modelos hidrológicos adaptados a diversas regiões, condições e demandas. Esses modelos representam matematicamente a realidade, fornecendo panoramas e estimativas que ajudem a resolver questões envolvendo o uso da água – tanto no Brasil quanto em outros países. “Você tem ao redor do mundo os mesmos tipos de problemas: escassez de água, eventos extremos. Eles estão relacionados à exploração excessiva dos recursos hídricos e também às mudanças das condições climáticas”, afirma Sven. Na última reunião entre os integrantes da Rede, realizada na Embrapa Pantanal em Corumbá (MS), o pesquisador pôde verificar as semelhanças e diferenças entre as regiões do Brasil, já que visitou e o Pantanal sul-mato-grossense, ampliando sua bagagem profissional. “As pessoas estão aprendendo umas com as outras”, diz.

“O nosso centro de pesquisa é um dos mais antigos no que diz respeito aos estudos sobre qualidade de água”, diz a pesquisadora Márcia Divina, da Embrapa Pantanal. Os trabalhos com recursos hídricos envolvem estudos sobre ecologia aquática, monitoramento a longo prazo do Rio Paraguai (com uma ampla base de dados elaborada em 25 anos de trabalho) e o transporte e entrada de sedimentos e nutrientes na planície pantaneira, por exemplo. “Nós entendemos os processos, medimos o que está chegando até o Pantanal para gerar um entendimento da situação, avaliar os impactos e desenvolver medidas para a conservação do bioma”. Para Divina, o trabalho é enriquecido pela troca de experiências promovida pela Rede, que proporciona o contato entre pesquisadores de diferentes biomas e realidades. “A rede Agrohidro tem o caráter de sensibilizar os usuários de água de forma geral, seja na produção de grãos, seja nas hidrelétricas, na piscicultura, para manter esse caráter multiuso dos recursos – mas com conservação”, finaliza.

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