Pesquisa apresenta alternativas para a agricultura sustentável

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“A gente vai se conscientizando e encontrando alternativas. Usávamos essas coisas como remédio e hoje sabemos que é veneno”. A afirmativa do produtor rural Demerval Pereira de Sousa, de Cachoeiras de Macacu, RJ, faz referência ao uso de agrotóxicos e ilustra bem parte dos resultados de dez anos de pesquisas na região, apresentados no dia 18 de agosto por pesquisadores da Embrapa Agrobiologia e da Embrapa Solos no Seminário Técnico: dez anos de pesquisas da Embrapa na bacia Guapi-Macacu.

Durante cerca de três horas, os pesquisadores apresentaram para representantes de instituições parceiras e gestores públicos uma síntese dos estudos, que envolveram uma equipe multidisciplinar, apoiada pelos agricultores e pela prefeitura local. “O conhecimento foi construído. Nós trouxemos uma parte, mas vocês nos deram outra”, disse o chefe-geral da Embrapa Solos, Daniel Pérez, numa referência ao apoio dos agricultores.

Pérez afirmou ainda que muitas pesquisas foram feitas com o objetivo de prover alimentos e novos serviços essenciais para a produção de água e para a preservação de florestas e da biodiversidade da bacia Guapi-Macacu, que responde por parte do abastecimento hídrico da região metropolitana do RJ. “Existe uma série de possibilidades ligadas ao bom uso e manejo do solo adequado”, ressaltou.

Do conhecimento do solo ao agroturismo – Para entender o porquê do uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras da região, como isso tem afetado a biodiversidade local e quais as possibilidades de preservação dos mananciais, os pesquisadores foram buscar respostas até mesmo na história. “Precisávamos conhecer o histórico da região. Hoje sabemos que uma das coisas que têm contribuído para a manutenção dos fragmentos florestais é o número de unidades de conservação”, relatou a pesquisadora Elaine Fidalgo, da Embrapa Solos, em sua palestra.

Nada escapou aos olhos atentos da equipe. Em uma década, foram feitas inúmeras coletas de solo, de fauna e flora, fotografias aéreas, análise da qualidade da água em diversos pontos, mapas de áreas prioritárias para intervenção e até um levantamento dos locais a serem explorados pelo agroturismo. “A região tem um grande potencial para o turismo rural e ecológico devido à grande riqueza de recursos naturais”, explicou a pesquisadora Bernadete Pedreira, da Embrapa Solos.

A pesquisadora elaborou um mapa com pontos de interesse do agroturismo e tem um plano com mais de 70 propostas para o desenvolvimento do serviço na região. O documento aponta, por exemplo, possíveis serviços ambientais e culturais que podem ser explorados. “Se você tem um planejamento com propostas integradas, as chances de sucesso são bem maiores”, argumentou.

Pesquisa participativa – Desde o início, os pesquisadores procuraram ouvir os agricultores da região, que relataram o que seria possível fazer para diminuir o uso de produtos químicos nas suas lavouras. Por outro lado, os pesquisadores mostraram o quanto a presença da mata e da biodiversidade era capaz de auxiliá-los nesse processo. “Vimos que nas áreas onde há mata o cultivo é mais fácil, porque há um grande número de vespas que atua como polinizador e inimigo natural de pragas. E hoje eles entendem isto”, explicou Mariella Uzêda, pesquisadora da Embrapa Agrobiologia.

Uzêda ressaltou a importância da experimentação participativa no projeto. “Foi essa vivência com eles que nos alertou para focarmos no potencial econômico das espécies florestais”, conta a pesquisadora, referindo-se às espécies que os agricultores estão utilizando para recompor suas áreas. A pesquisadora está trabalhando com eles também na identificação de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) que possam ter valor comercial e gerar renda.

O pagamento por serviços ambientais foi apresentado pela pesquisadora Raquel Prado, da Embrapa Solos, como uma oportunidade sustentável para os produtores daquela região. Prado fez um relato de como o assunto vem sendo tratado no Brasil. De acordo com ela, são mais de 60 projetos em andamento e previstos até 2023 em todos os biomas brasileiros. Ela adiantou ainda que a Embrapa está preparando um manual para orientar os agricultores sobre essas oportunidades. “Os produtores passaram a ser vistos como contribuintes da situação da água e não como vilões”, disse.

Perspectivas futuras – Intensificar o diálogo entre pesquisa e sociedade, interagir sempre com o setor produtivo e construir juntos caminhos alternativos que promovam a sustentabilidade da agricultura e do meio ambiente foram alguns pontos destacados pela pesquisadora Maria Elizabeth Correia, chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agrobiologia, no encerramento do seminário. “Queremos que nossas pesquisas sejam pautadas pela demanda da sociedade, porque o conhecimento tem que ser transformador da realidade”, destacou a chefe.

No que depender dos agricultores, o recado foi bem recebido. Almir Dias, diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar, reconheceu a importância da pesquisa. Para ele, essa aproximação tem possibilitado a descoberta de alternativas e a conscientização do que realmente é bom para a lavoura. “O agricultor familiar sabe da necessidade de preservar o meio ambiente. O verdadeiro ambientalista é o pequeno produtor”, exaltou, animado, o sindicalista.

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