A produção orgânica e a ameaça à segurança alimentar mundial

Com a expectativa de um crescimento populacional que elevará a aproximadamente 9 bilhões o número de habitantes na Terra até 2050, uma das questões mais pertinentes na abordagem de modos de produção agrícola refere-se à capacidade desses formatos para a segurança alimentar mundial. Grande parte do conservadorismo no fomento de alternativas ao modelo agrícola que se convencionou desde o pós guerra, na chamada Revolução Verde, é resultante do medo em uma quebra de produção que causaria fome em grande escala.

O avanço das pesquisas em agricultura orgânica, nas últimas décadas, trouxe à luz muitas respostas para perguntas e mitos relacionados ao cultivo orgânico e à adoção da agricultura de bases ecológicas como solução para problemas ambientais e sociais, que passaram a ser evidentes com o desgaste do modo convencional de fazer agricultura. Porém, uma das perguntas postas como centrais sobre a adoção da agricultura orgânica parece, ainda, não ter resposta definitiva. Seremos capazes de assegurar a alimentação de todas as pessoas, baseando a produção de alimentos na agricultura orgânica, que proíbe o uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos e OGM’s – organismos geneticamente modificados?

Respostas variadas vêm à tona diante dessa pergunta, muitas vezes enviesadas por interesses dos atores que buscam respondê-la. A possibilidade do crescimento da produção orgânica é uma ameaça para os objetivos de empresas e instituições que dependem da continuidade do uso intensivo de maquinário agrícola, insumos químicos e transgenia.

Torna-se importante pontuar que dados de pesquisa, mesmo os numéricos, são sempre avaliados a partir da interpretação de uma pessoa ou um grupo de pessoas. Além disso, as perguntas feitas estão a serviço de interesses específicos. Nesse sentido, mesmo verdades fatuais podem direcionar a conclusões diferentes, posto que, junto a esses fatos estão associadas opiniões. Ou seja, embora com estatuto de verdadeira, uma dada conclusão dificilmente pode ser considerada como o único caminho possível.

Há dados que suportam a teoria de que a agricultura convencional é mais produtiva. Mas, enfim, de que forma podemos compreender o sentido da palavra produtividade? É possível avaliar o termo a partir do risco, inerente à agricultura. Isto é, se houvesse alguma perda de produção, qual seria a escala de tal prejuízo. Pode-se buscar um viés de temporalidade, quando a produção agrícola está intimamente ligada a fatores de curto e, ao mesmo tempo, de longo prazo. Pode-se, ainda, ponderar a proporção desigual de fomento destinado para o cultivo orgânico em relação à agricultura convencional. No entanto, essas discussões virão em breve. O presente texto tem outro propósito, o de dar destaque para perguntas comumente feitas, apresentando opções de questionamentos, que podem ser mais fecundas a tão importante debate.

Em uma visão mais pragmática, produtividade significa a totalidade da produção, nesse caso de alimentos, em uma determinada área e em um determinado período. Trata-se, portanto, de uma conta matemática em uma perspectiva lógica e limitada em termos de efeitos. E por essa ótica, sustenta-se que somente o modelo convencional pode suportar a demanda crescente de alimentos.

Por outro lado, em uma visão acadêmica mais atual, produtividade pode ser expressa pela quantidade de desenvolvimento que uma determinada produção agrega a uma sociedade, limitada a uma área e a um período de tempo. Defende-se, nessa perspectiva, a ideia de que não apenas quantidade, mas outros fatores são importantes, como a qualidade nutricional dos alimentos, a biodiversidade, o legado cultural, social, ambiental e econômico e, principalmente, a distribuição da oferta que tal produção poderá gerar. Nesse sentido, o modelo orgânico mostra-se superior em resultados e sua adoção é, majoritariamente, defendida.

Soma-se a isso o fato de que a produção atual de alimentos é suficiente para alimentar a população mundial, embora não o faça. Logo, a equação não parece resolver-se na relação direta entre a quantidade de calorias alimentares produzidas e a quantidade de seres humanos. A causa da fome reside, também, na herança social e econômica gerada pelos modelos produtivos adotados.

Será que a pergunta original, portanto, não deveria ser: pode um modelo agrícola – consolidado e pleno de investimentos econômicos bem como de incentivos políticos -, que atualmente já não alimenta a população, embora produza quantidade de comida suficiente, alimentar uma demanda ainda maior? Os indícios atuais indicam que a resposta seja não. E diante do primeiro questionamento deste texto, recorrentemente posto em dúvida pela ótica conservadora, sobre a produção ecológica ser capaz de produzir comida suficiente para todos, apontamos para o crescimento contínuo do modelo orgânico e para necessidades sociais e ambientais dele ser ainda maior. Maior em qual proporção? Esta sim, parece ser uma pergunta ainda sem resposta.

visto em http://www.portalorganico.com.br/noticia/368/a-producao-organica-e-a-ameaca-a-seguranca-alimentar-mundial

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